Energia renovável já afeta 34% de áreas protegidas no Brasil
- Márcio Leal

- há 5 dias
- 2 min de leitura

Apresentada como solução para a crise climática, a transição energética já afeta mais de 4 mil territórios protegidos no Brasil. Se os projetos planejados para ampliar a geração de energia renovável saírem do papel, o impacto poderá atingir 7 mil unidades de conservação e áreas ocupadas por povos tradicionais (58% das terras protegidas no país).
É o que mostra o Observatório da Transição Energética, ferramenta lançada em 26 de março pela Repórter Brasil, em parceria com o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e o Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS). A iniciativa tem apoio da Fundação Ford e colaboração da Rainforest Investigations Network (Pulitzer Center).
A iniciativa cruza dados de quatro tipos de empreendimentos de energia renovável - usinas eólicas, usinas fotovoltaicas, linhas de transmissão de alta tensão e processos dos chamados minerais críticos - com quatro categorias de territórios: terras indígenas (638), quilombos (429), unidades de conservação ambiental (3.110) e assentamentos de reforma agrária (8.218).
Essas áreas são especialmente sensíveis, pois abrigam comunidades com papel fundamental na preservação ambiental, na segurança hídrica, na produção de alimentos e no combate ao aquecimento global.
A missão do Observatório é monitorar os projetos de energia renovável, fundamentais para a descarbonização da economia, sob a ótica da justiça climática. Afinal de contas, não faz sentido reduzir as emissões de Gases de Efeito Estufa, mas ao mesmo tempo poluir rios, devastar matas nativas e piorar a vida de quem protege a natureza.
"A ferramenta organiza e cruza dados dispersos de diferentes atividades econômicas com os territórios e populações tradicionais. Permite ver os dados agrupados, que antes apareciam de forma isolada, o que ajuda a entender o tamanho da pressão sobre os territórios. Dá para ver isso no mapa", explica o editor sênior da Repórter Brasil e um dos coordenadores do Observatório, Diego Junqueira.
APA Itacaré/Serra Grande
O mapa apresenta as informações para a região da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa de Itacaré / Serra Grande. Apesar de não ser apresentado nenhum impacto presente, a ferramenta lista 17 processos relacionados à mineração nos três municípios envolvidos - Itacaré, Maraú e Uruçuca.
Ao todo, o impacto desses empreendimentos, caso iniciem, alcança 36% da área da APA, totalizando 227,7 milhões de m² - tamanho equivalente a quase 32 mil campos de futebol. As minerações interessadas na região envolvem bauxita, manganês e titânio.
Monitoramento e preservação
"Mais do que um espaço de denúncia, o Observatório da Transição Energética funciona como uma ferramenta de monitoramento e prevenção, permitindo que comunidades e movimentos sociais possam se antecipar e se organizar antes que os projetos se consolidem", explica o pesquisador Bruno Milanez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, coordenador do PoEMAS e consultor científico do Observatório. Ele também é coordenador do projeto Justiça na Transição Energética, iniciativa do Inesc e do PoEMAS.
Os dados que embasam a plataforma foram compilados a partir de bases públicas. As fontes incluem dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Agência Nacional de Mineração (ANM), Empresa de Pesquisa Energética, Fundação Nacional dos Povos Indígenas do Brasil (Funai), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e Ministério do Meio Ambiente. A programação é do Studio Cubo e o design, de Rodrigo Bento.




Comentários